French January: Quando as Vinhateiras Reagem | Sem Pedir Licença — The WineZine
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Retratos de vinhateiras, sommelières e enólogas que estão sacudindo um setor historicamente masculino. Celebração do talento e da audácia femininos.

French January: quando as vinhateiras reagem (e se divertem muito)

Sophie Foray e suas amigas viraram o Dry January de cabeça pra baixo — com vinho, risadas e convicção de verdade.

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Tem ato de resistência que acontece na rua, punho erguido. E tem aquele que acontece com a taça na mão, entre vinhateiras que estão cansadas de levar sermão.

No dia 20 de janeiro, Sophie Foray — vinhateira no Château Franc-Baudron, na appellation Montagne-Saint-Émilion — publicou um reel no Instagram que rapidamente viralizou nos círculos do setor: uma paródia assumida e bem-humorada do Dry January, rebatizado para a ocasião de French January. Sem grandes declarações solenes, sem manifesto pesado como barrica nova. Só mulheres da vinha, juntas, rindo. E com algo a dizer.

Retrato · Vinhateira
Sophie Foray — Château Franc-Baudron
Filha de Michel Guimberteau, herdeira de uma propriedade familiar fundada em 1923 nos coteaux de Montagne-Saint-Émilion, Sophie fez sua formação na Alsácia, nas áreas comercial e de comunicação do vinho, antes de voltar para a Gironda em 2010 com seu companheiro Charles Foray para retomar o domaine da família. O que veio depois é dela: 42 hectares certificados em agricultura biológica, uma filosofia de terroir sem concessões — vinhos vivos, sinceros, que expressam seu caráter e suas origens — e uma voz própria, que ressoa agora também nas redes.

É essa mulher quem toma a palavra. Enraizada em uma terra de família, formada na escola do terreno, convicta de que o vinho merece mais do que ser demonizado — ela decidiu se posicionar. E a mensagem é límpida, sem rodeios: não ao mês sem vinho importado de culturas anglo-saxônicas que não têm a menor ideia do que o vinho representa na França — não é um vício a exorcizar, mas um setor, um território, milhares de empregos, uma cultura. Por trás de cada garrafa que se escolhe não abrir em janeiro, tem um vigneron, um sommelier, um operário de adega, uma vinhateira como Sophie que sente o tranco.

Não é um conceito de marketing saído de uma agência parisiense. É uma resposta espontânea, encarnada, humana — nascida nas vinhas de uma família que trabalha a terra há um século.

Mas o que chama atenção nesse vídeo não é o discurso. É a forma. São mulheres que se apropriam dos códigos do conteúdo viral — o humor, a cumplicidade, o só entre a gente — para passar uma mensagem de fundo. Sem dar lição de moral. Sem ser pregadoras. Sendo exatamente o que são: profissionais do vinho que amam o que fazem e sabem se divertir.

Num meio onde a palavra pública foi por muito tempo privilégio dos homens — os maîtres de chai [mestres de adega], os négociants [negociantes], os críticos — ver vinhateiras dominando as redes com tanta desenvoltura é, por si só, uma pequena revolução. Sophie não posa de ícone. Ela grava um vídeo com as amigas, ri, assume, convence. É exatamente aí que está sua força.

O reel original — @francbaudron
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Beber menos? Tudo bem, por que não. Mas beber melhor, beber francês, beber com consciência — e fazer isso rindo com mulheres que têm as mãos na terra — essa é uma filosofia que The WineZine assina com as duas mãos. 🍷